sexta-feira

"O dragão tecnológico e os desejos jamais satisfeitos" (Excertos)

Ciro Marcondes Filho

(...) A criação de espaços na realidade virtual tornou possível a navegação por territórios extraplanetários das ondas elétricas, estabeleceu lugares de troca comum com um território virgem da exploração humana: no espaço das redes. Isso significou tanto a relativização (e, portanto, o desinvestimento) dos espaços físico-reais da geografia, mas também do corpo humano, como a possibilidade de existência em um tempo extra-cronômetro, o tempo da virtualidade. Essa reelaboração das duas dimensões clássicas da física abriu para a humanidade um campo tanto fascinante quanto preocupante, tanto deslumbrante quanto inesperado, tanto novo quanto sorrateiro, tanto estimulante como amedrontador, pois o encaminhar das pessoas por esse novo mundo de forma nenhuma pressupõe uma previsibilidade, uma segurança, uma garantia de tranqüilidade e ancoramento no que quer que seja.

Os sistemas eletrônicos têm a capacidade de absorver seus próprios erros, as influências externas, as ineficiências, e elaboram respostas adaptativas cuja capacidade para compreendê-las e segui-las estará cada vez mais fora de nosso alcance. De algum tempo para cá os homens atuam mais como alimentadores dessa máquina, espécie de dragão a ser sistematicamente abastecido com novos chips, novos programas, novos processos, sempre assustadoramente mais rápidos que os anteriores, mais capazes, mais amplos (...)

Por isso os jornalistas da atualidade, mesmo os mais informados e mesmo aqueles que trabalham nos centros nevrálgicos da economia mundial, pouco podem prever onde vai dar tudo isso. Tampouco, naturalmente, essa massa de entusiastas das conversas eletrônicas, do correio, da realidade virtual, que se coloca diante da máquina como se operasse joguetes eletrônicos de guerra, de emocionantes perseguições de criminosos, de aventuras em castelos ou labirintos tenebrosos.

O deslocamento dos interesses para o mundo da realidade virtual é, por isso, mais problemático do que a dispersão das pessoas nos espaços clássicos de fantasia dos filmes, da literatura, do teatro, e de todas as formas estéticas que jogavam com a representação da vida. A virtualidade não é o contraponto do mundo real (...) mas é outro mundo. Um mundo para o qual o conceito de "fuga" não se adapta, pois esta é sempre correlata à situação que a possibilitou. No mundo das realidades virtuais trata-se de efetiva transferência, de deslocamento, de mudança para num território onde os conflitos desaparecem, onde a miséria e a dor não existem, onde as trocas sexuais não portam perigo, onde o Mal foi efetivamente banido. Supra-sumo, assim, da idéia de paraíso, possível antes da morte e mesmo aos pecadores.

(...) A realidade virtual é uma viagem, uma despedida deste território poluído, desigual, desumano, marcado pela violência e pela destruição, um acomodar-se no paraíso realizado das novas tecnologias, no prazer inofensivo de simplesmente desligar-se de tudo (...)

Talvez estejamos nos tornando cada vez mais estranhos, uns aos outros. Talvez estejamos atrofiando nossa sensibilidade tátil, nosso olfato, a capacidade de sentir o calor, talvez mesmo a própria presença física do outro - sua exsudação, a lubrificação de seu sexo, o frisson de tocar sua pele, seus cabelos, seus órgãos, seu corpo (...)

Essa segurança acabamos por comprar pagando com nosso lado humano. A questão é saber se a troca é vantajosa, se a compensação no final justifica, pois, quando a máquina é desligada reaparece o vazio existencial e cada um tem de acertar as contas com sua própria miséria. Isso porque a viagem não nos altera, nem ao nosso mundo, apenas antecipa com pequenas mortes nossa brevidade existencial. Paradoxo do novo século: por um lado se busca estender a longevidade dos homens, por outro, se lhes subtrai, a cada dia, um pouquinho da vida efetiva, deixando-lhes somente a excitação, o estresse e os desejos, que sempre são renovados mas jamais efetivamente realizados.


Revista Espiral - Ano 2- Núm.8 ( Julho / Agosto / Setembro de 2001)

Ciro Marcondes Filho é Prof. Dr. em Ciências da Comunicação e coordenador geral do 'Núcleo José Reis de Divulgação Científica' (função que exerceu também no extinto Coletivo NTC-SP)

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